Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

10 de maio de 2012

Parábola da Equação do Amor


Certa vez um rapaz sem dotes físicos extravagantes, que tinha em seu conhecimento matemático seu maior dom, se apaixonou por uma linda estudante de Letras. Por muito tempo ele viveu o encantamento de maneira secreta, sem se arriscar a decepções. Todos os dias observava o desfilar de sua musa pelas áreas comuns da universidade, contudo nunca sentiu coragem suficiente para abordá-la. Sempre que seus olhares se cruzavam ele desviava sua atenção com vergonha da situação.
Um dia, cansada de tanto esperar pela iniciativa daquele rapaz inseguro e tímido, a garota foi ao seu encontro e indagou:

- Bom dia! É impressão minha ou existe entre nós interesses além do âmbito estudantil. Vejo você me observar todos os dias e sempre espero ouvir sua voz, mas em silêncio retorno a minha rotina, curiosa a respeito do pensamento desse rapaz que tanto me instiga.

- Desculpe-me, Bom dia! Não tenho a intenção de constrangê-la, mas meu coração pulsa numa frequência descompassada, em velocidade incalculável, fazendo com que minhas resoluções sobre a vida pareçam inexatas. Partindo deste princípio de ausência da razão e da perspectiva ínfima de possibilidade da correspondência na sensação e desejo, me privei da tentativa.

- Que pena que você não se permitiu. Pelo pouco que conheço de estatística ao menos 50% das chances seriam positivas aos seus interesses. É preciso ser mais confiante.

- Eu sou, mas depois de calcular todas as variantes que me possibilitariam êxito nessa conquista, não encontrei equação que me favorecesse. Se você vê uma alternativa para que eu consiga o seu amor, me apresente, por favor!

Ela de maneira discreta pegou um guardanapo na bolsa, ofereceu um sorriso e um olhar convidativo, e com a caneta esferográfica rabiscou brevemente...

35-3WV

Ele passou alguns segundos analisando a singela equação e sem compreender questionou:

- Qual sua intenção com a representação destas incógnitas incomuns?

- Ah, desculpe! O papel está de cabeça para baixo.
...



11 de maio de 2011

Pequenos Contos Modernos - V

¬.O defunto e a laranjeira

Parada na sua estância ela balança ao sabor do vento. Imóvel, ele sem dor, nem lamento espera o tempo que não cessa em sua viagem. As folhas verdes em galhos finos, os frutos mínimos se expandindo em um espaço amplo. O cheiro forte da putrefação, a pele roxa, a língua solta numa boca frouxa.
Era meio dia e o insano se instalou na mente humana. Chegou para o trabalho sujo contra seu próprio mundo. Deixou a bicicleta na portaria e adentrou para um café. Seria seu último minuto de excitação. A cafeína lhe correu por dentro e o sangue frio lhe adiantou os passos. Foi ao fundo, no fundo de sua alma, na calma de sua loucura, na sina de sua história. Sem glória amarrou a corda no caule da árvore que não lhe pode dizer nada.
Quatro horas depois, ainda lá, longe da curiosidade alheia, escondido de seu próprio fracasso, se faz as ultimas anotações. Farda, sandália e saliva. As almas vivas espantadas com sua interpretação. Sem aplausos a cortina se fecha pro que poderia ser um momento seguinte. Mas o desfecho deste drama incomum se dá no requinte da recepção popular sem nexo e no complexo choro de um filho abandonado.
Quatro horas antes, ainda em casa, o café esquenta na brasa, a mulher olha preocupada, já sente que algo está errado. Suas palavras perdidas ecoam pelas paredes sujas com o tempo, seu pensamento vagueia nas horas que ainda seguirão. A família acredita que esse estranhamento passará, mais tarde ele volta e tudo voltará ao normal. Isso não aconteceu.
A laranjeira em seu canto calada vê o homem que nada contra uma corrente de idéias tortas, que fecha a porta para um futuro possível. Um homem invisível que se pendura pelo pescoço e se lança sem alarde para um fim insensato. Ali, o resumo de um fato narrado, laranjas doces e um corpo inanimado.
É uma tarde de maio e o sol brilha forte.

5 de março de 2011

LENÇÓIS EMARANHADOS

Sobre os lençóis emaranhados de uma madrugada sonolenta o celular vibra informando uma mensagem. O ponto de partida das palavras noturnas se encontra em silencio na expectativa da reação de quem as lê. Ali deitado ele dorme na sua imbecilidade ingênua e cansativa de uma rotina sem esperança.
...
Levanta-se suado sob um céu enluarado de verão. Com a mão busca pela parede o interruptor. Ainda cego pela iluminação que o envolve procura o celular na ânsia de observar as horas, afinal a muito os celulares aposentaram os relógios. Vê o símbolo do SMS no alto do visor, abre a pasta, despreocupado como quem espera a resposta do saldo dos créditos telefônicos, e avista o nome inesperado no cabeçalho da mensagem. Ela, que ele já não imaginava, que em seus sonhos já era figura escassa, que fugiu da realidade de sua vida tão rápido quanto um estourar de um balão.
Em duas frases com cinco palavras ela escreveu uma notícia tão efemeramente intensa que sequer a bíblia naquele momento poderia promover tamanha emoção comparada com aquelas orações de palavras suprimidas. Era tão fascinante a leitura que honestamente ele não acreditou de imediato. Mas não seria muito inteligente desacreditar na surpresa agradável que ele acabará de receber. Era ela, e queria ele.
Levantou-se apressado, vestiu o que lhe coube e rumou em direção as estrelas de uma noite encantada. Cada passo sonhador promovia a leveza da alma endiabradamente apaixonada. Seguiu pelo caminho de paralelos discretos até seu destino. A porta estava fechada, a luz acesa escapava pelas brechas da fechadura, e o som da televisão ligada se ouvia da calçada. Ela esperava alguém e esse alguém acabava de chegar ao seu momento.
Após um breve e suave toque de campainha o olho mágico vislumbrava sua resposta. A porta se abre e os sorrisos mútuos já abertos em satisfação se encontram. Faz-se silêncio entre eles, a TV atravessa a madrugada num dialogo desconexo desse filmes de western em uma dessas sessões para pessoas insones. Os corpos se lançam como o vento em direção ao continente, a porta se fecha, os lábios se somam, as peles se unem. Os seres se amam sob a luz testemunhal da lua, sob o som estranho da TV, sob o calor infernal de um verão celeste.
Ali, prestes a consumação no fogo de seus desejos, eles sabem que será aquela a ultima chance de se sentirem seus, um entregue ao outro como se houvessem nascidos para este único propósito, mesmo que na imaginação de seus corações imaturos. Eles se perdem no encontro das vontades. A madrugada se escreve em chama na cama daquele amor que vivia enfim o seu final.
...
Sobre os matinais lençóis sonolentos e emaranhados ele acorda. Olha o celular sem entusiasmo. Já não espera a mensagem, pois sabe, nunca vai chegar.

24 de dezembro de 2010

História de Natal

Esta história começa no inicio do século passado. Uma criança que nasce num berço humilde, filho de camponeses já cheios de filhos. Menino que crescendo presencia a morte do pai, a fome da mãe e a pobreza que vai assumindo protagonismo em sua vida. Junto com seus irmãos assiste o definhar calado da mãe no seu leito de miséria e dor. Dor de não ter o que comer e não ter o que oferecer aos seus meninos espalhados ao chão. Chão de uma casa de farinha que presencia o desfazer de uma família. Família que perde o sentido nos rumos distintos que cada um faz em seu destino. Uns morrem, outros somem, mas alguns, incluindo aquele menino, conseguem se reencontrar e construir uma história.
Ele cresceu no labor da vida. Foi homem do campo, colhedor de cacau, ‘cuidador’ de animais; Foi homem do progresso ao abrir estradas, construir igrejas, levantar sobrados; Contudo o que se destacou em sua história foi ser homem de família. Teve seus filhos, criou-os em sua modéstia, nos seus ensinamentos silenciosos, na sua sabedoria interminável freqüentadora da vida e ausente da escola. Fez-se um homem de fartura na mesa, de casa cheia, de sorriso fácil, de alegria evidente na face marcada pela tragédia escondida.
Seus filhos lhe deram netos, seus netos bisnetos. Sua mulher morreu e ele se casou de novo. Criou outra família, fez dos filhos de outros os seus. Viveu sua aposentadoria em momentos de simplicidade serena, com dificuldades preservou-se vivo. Seu coração batia diferente.
Hoje esse velhinho ouviu uma criança pedir comida a uma pobre mãe que não soube o que falar. Hoje é natal. Ele fez seus caminhos, seguiu sua rotina, e encontrou a menina na porta de sua casa. Como quem quer fazer uma surpresa trouxe num pacote embrulhado uma boneca. A menina com fome sapateava na sua frente e o pobre velho não sabia quem estava mais contente. Então emocionado saiu discretamente por conta de um coração fragilizado. O seu coração é maior que o peito.

“Quem pede, pede chorando
Quem dá merece vontade
Coitado de quem pede
Pela sua necessidade.”
Dezin

O natal é todo dia em que a bondade renasce no coração do homem.


7 de outubro de 2010

Pequenos Contos Modernos - IV

¬. A Janela d'Além Horizonte
...
Todos os dias lá estava ele a contemplar o cotidiano de sua rua. Ninguém o notava, ninguém o sentia, mas não havia dia, nem tempo que o impedisse de se manter concreto em sua posição. Com o busto sobre o batente de cimento e o olhar turvo atento ao que se movia. Ele estático em sua analise solitária da vida que seguia seus rumos distintos era a marca da paisagem por tantas vezes despercebida.
Mas a vida segue seu próprio caminho independente dos viventes, dentre as linhas únicas existe um emaranhado de dados que nos ligam, que nos uni, mesmo que nós não tenhamos contato. Existe na rua o tato do tempo, que nos toca provocando sensações diferentes sobre a mesma sentença. Pensando nisso um dia ele não se postou sobre o batente. E o presente parecia comum, mas havia algo de errado no percurso. Não havia o vigilante da ordem no caos, não havia a figura singular do homem que vê além daquilo que nos permitimos enxergar. Estávamos inseguros na orfandade do observador.
Passaram-se alguns dias na monotonia da incerteza do que haveria ocorrido. O velho de armações oculares sem lentes não fazia suas aparições corriqueiras, ele parecia um criminoso, um fugitivo de suas obrigações. Os outros moradores seguiam suas rotinas. As crianças brincavam, os adultos trabalhavam, os velhos seguiam seus ócios e não havia ninguém para registrar as performances sociais.
Na sua ausência então coube a cada um observar um pouco mais do que o comum. De repente eu percebi o quanto colorida era aquela rua, quantas novas crianças se espalhavam pelos gramados da praça, como os vizinhos eram pessoas agradáveis e como aquela janela estava vazia sem o olhar que outrora saboreava cada camada de cores que a rotina singela de nossa terra pode nos proporcionar.
Então deu-se o retorno. E curioso como havia ficado, na primeira oportunidade de avistá-lo, fui saber o porque de sua tão demorada ausência. Ele em sua linguagem simples e sabedoria extensa de longos dias vividos me disse:
"- Fui a capital fazer uma cirurgia nos ouvidos. Tava escutando cada vez menos do mundo. E como cego de longa data, é o ouvido que me permite perceber a sua valorosa presença toda manhã rumo aos seus afazeres, e o retorno no fim da tarde para os sorrisos de sua família."
Dei minhas boas vindas e retornei a minha rotina. Dessa vez me permiti perceber como os paralelos da rua são irregulares, como as amedoeiras da praça estão carregadas e como as pessoas podem ser interessantes. Eu segui meu rumo de olhos abertos.

17 de setembro de 2010

Garota de Plástico

Não sei bem o que lhe aconteceu, mas hoje ela estava diferente. Sorriu assim pra gente, e me disse que queria se descobrir. Cansada de uma vida agradável, deixou de lado seus princípios e viveu além do intenso o que lhe foi oferecido. Homens descartáveis percorreram seu corpo; Mulheres também. E nada que lhe foi compartilhado em tesão e desejo deu ensejo a uma minúscula emoção.
Fudia o dia na manhã que ela acordou da vida e se perdeu num sonho psicodelíco de experimentos. Os escrementos em seu corpo não eram registros de romance. Apenas a lembrança de um lance que rolou em um lugar qualquer na companhia de qualquer um. Até pra seus padrões já estava bem além do que se aceitaria ir. Fez tudo sem pestanejar. Foram minutos de inconsciência social, moral e/ou pessoal. Era a puta que seus parceiros queriam, e eles, o que ela buscava.
O amor em seu formato minímo se realizou na busca de um pobre coração. Ela não goza, apenas reforça seu pensamento de que somente ela pode se fazer feliz. Ainda que correta, a porta aberta não dá acesso ao paraíso sonhado. A vontade de ter é apenas pedaço diante de ser. As rachaduras de nossa armadura não serão sanadas com o suor de outros. O amor é fruto interno. Não é de recados, lençóis e flores que se invoca o cupido.
Infelizmente agora ela caminha  no acostamento de uma vida sem hora marcada para o retorno. O abandono de si, dejá vu de momentos outros, faz um esgoto correr em suas veias. No peito uma bomba de dores e a lembrança de cada passo mal dado. Na sua consciência vazia ele escuta a reverberação do seu mundo dizendo: - Primeiro, é preciso se amar!

15 de setembro de 2010

O rio nunca é o mesmo

Ele acorda para mais um dia. Sua luta rotineira se inicia na viagem que altera o ambiente da realidade presente. Aos poucos os entes vão ficando cada vez mais distantes, e o que o circunda no momento que se segue é a incerta beleza do novo. O homem entregue ao mundo que agora o embala, se instala no sentido que o expressa melhor ao tempo. Ele é forte e seguro, o mundo é domável. O espaço que o recebe é acolhedor, como um primeiro encontro, como uma visita a casa dos tios. Mais o tempo passa e tudo que era colorido perde o brilho e a desgraça começa a se espalhar no horizonte. Em tudo que se sente haverá mudança. A vida, a rima, a dança. Cada novo verso é uma expressão. O homem se cansa da aventura cotidiana e em uma reação tipicamente humana, retrocede em busca de abrigo. Ele volta e tudo se encontra no seu devido lugar. As pessoas, os espaços. Tudo ali ainda é o mesmo,...





...mas já não é mesmo.

11 de setembro de 2010

Pequenos Contos Modernos - III

¬. 3 Zés, 7 jurados, 1 botijão - história de um pescador.
...
Sentado no centro da sala do júri, um pescador com uma história sendo escrita. Cinco anos antes uma situação inusitada o levaria até o momento presente.
Era tarde de um sábado comum quando em frente a um boteco de feira uma confusão se instalou. Alguns minutos antes um Zé cego que fazia uma mudança fora furtado. Levaram de seu casebre um botijão de gás. Enfurecido com a situação o mesmo resolveu sair a caça do imoral ladrão. Um cego, bêbado e armado, saiu a rua buscando fazer justiça com as próprias mãos. Acompanhado de outros Zés, também bêbados, o Bobina e o Moleira, zigzagueram pelas ruas da cidade. Lá pelas tantas, entre boatos e bochichos, encontraram um pescador que não inventou essa história.
Palavrões e ofensas proferidas ao ar, homens embriagados enfurecidos  e uma faca de cozinha no lugar errado. Em segundos de fúria o pescador, que sabia que o provável ladrão era o Moleira, conhecido como (ar)rombador na região, e que foi acusado pelo mesmo do furto que o próprio havia cometido, foi ameaçado com uma investida do cego roubado. Entre corpos embolados a faca reapareceu cravada no peito do cego, que agora não precisava mais do botijão.
O Moleira sumiu na confusão, o pescador fugiu de sua ação, o cego morreu sem compaixão. E o Bobina que entrou de gaiato nessa história foi beber mais uma pra esquecer o que não lembrava. O pescador foi preso e cego enterrado. Do Moleira não se tem notícias. E o Bobina que interrogado contou diversas versões do fato já narrado, variando apenas na intensidade da presença do álcool em seu estado, acabou por fazer rir o juiz.
Agora já julgado, sete pessoas estranhas ao relato decidiram por 13 anos ao condenado. Os dias seguem normais na feira e no boteco. Essa história de pescador exalta o quanto a justiça é cega na embriaguez da vida.

28 de agosto de 2010

Que Pº##@ é ESSA!

"!Os olhos se abrem e o que surge é uma ambiente facilmente reconhecido, encardido como um filme antigo. Saltam cores borbulhantes em flocos de neve dentro do meu apartamento. Sozinho vejo os movéis se ajeitarem novamente em seus lugares como se estivessem saindo de um terremoto. Quando sinto que estou recuperando a lucidez eis que me surge uma linda mulher, mais velha para os meus padrões, contudo ainda interessante. Vestindo um vestido bege, que revela uma cinta-liga ousada, ela me olha com desejo. Eu nunca me senti tão tomado por um olhar seco de mulher. Eu me senti um frango girando no forno do açougue. Aquela boca sedosa salivava em minha vontade, e eu já estava assustado, aquela pessoa me parecia familiar. Eu estaria sobre os lençois se um homem, que parecia meu pai, não intervisse no ato e assassinasse a sangue frio aquela musa desconhecida. Ele me perguntou se estava bem. Não respondi. Nem deu tempo. Em seguida meu quarto foi invadido por uma corja de mulheres semi nuas que abusaram do senhor na minha frente, elas agiam como se eu não estivesse ali. Após consumir a carne dos corpos estirados no chão do meu apé, elas sairam pela janela. Corri até o batente par tentar avistá-las, mas nenhum sinal de sua presença abaixo do meu 14º andar. Nem mesmo a avenida que havia antes existia. Meu prédio navegava  em alto-mar e conseguia avistar ao longe apenas alguns pontos brancos como icebergs. Eu não estava normal. Meu corpo fervia, parecia que estava prestes a se fragmentar. Fui até a geladeira. O prédio começou a tremer, os movéis a quebrar, o chão e o teto a rachar. Antes que fosse engolido pelo vazio, abri a geladeira e vi o fim do mundo: alguém havia roubado meu vinho.!"
_____________________________________
Notícia do Jornal no dia seguinte:
Jovem encontrado morto por overdose em seu apartamento.

************************************
O estranho é que meu único vício era em Filmes B.

25 de agosto de 2010

2x - Histórias de um mesmo mundo

.

Toda Ficção antes de escrita oferece diversas versões.
.
...
O Terno & a Chuva de Prata
Ele se prepara alegremente para o grande dia. A família na sala ansiosamente o aguarda para o desfile da realização. Naquele momento cada ente presente e amigo se realiza na conquista do individuo central da festa. O jovem diplomado será agora um profissional de sucesso.
Todos nos seus carros encaminham-se ao salão da formalidade. Sem espaço seus amigos se apertam para lhe oferecer um sorriso de vitória, demonstrando a ele que tudo valeu à pena. Todos os obstáculos foram vencidos. Agora cabe apenas ao tempo estabelecer as ligações e o universo conspirará para sua total satisfação.
A festa se encerra com a despedida dos colegas e a confraternização de todos os queridos que lhe estiveram apoiando durante todo o percurso. Na sua cabeça flutua a esperança de um sucesso duradouro. Ele está pronto para o mercado de trabalho.

...
A Prata, o Terno & a Chuva
Chega mais cedo do trabalho, toma seu banho e se veste silenciosamente pra o evento, ouvindo o som da televisão ligada na sala, onde a família permanece na rotina. Beija sua mãe, faz um gesto ao pai, olha os últimos detalhes e sai.
Na rua caminha até um ponto de moto-táxi, fala o endereço ao condutor e observa o olhar de estranheza dos demais rapazes do ponto. Segue o percurso imaginando a tristeza dos seus pais por não terem condições de se apresentar no ambiente, já que gastaram todo o dinheiro no aluguel de sua roupa. Não convidou amigos, pois não sabia a quem enviar. A viagem acaba. Ele chegou ao salão.
Lá dentro se assusta com todo ar de grandiosidade que a festa aparenta, com as famílias alegres e com sua solidão envergonhada. Pede para a moça da organização lhe fazer companhia na entrada. Ocupa seu lugar no palco e espera o fim da cerimônia. Despede-se das pessoas com quem conviveu e toma seu rumo, pois tem a triste certeza de que sua vida não mudou. Amanhã no mercado ele vai ter trabalho. Pronto!
...
.
Isso porque a ficção é apenas parcela da realidade.

1 de agosto de 2010

Ritos de Passagem

Do Velório ao Enterro
Chego e a casa está cheia. Pessoas desconhecidas reunidas sob o mesmo teto em um pequeno espaço disputando a chance de se solidarizar. Estar ali já representa uma mensagem aos moradores. Lá fora a chuva cai constante, uma pequena garoa irritante que não cessa. Uma imagem romântica que a natureza inconscientemente nos oferece de cenário. Entre as paredes dos cômodos os anfitriões se derramam em tristes lágrimas. No centro da sala uma moldura da dor e da despedida. Ao mesmo tempo que tudo transparece desespero pela saudade já intensa, é na crença de uma incerteza que o alívio começa a surgir. Vem a cantoria, os louvores e as rezas. Independente de que livro lhe é o caminho, o espetaculo dos costumes nos apresentam a beleza da coletividade anônima. Vozes nunca antes reunidas entoam unissonamente os versos esperançosos de uma ladainha antiga. A dor se transforma em gemido, os gemidos em gritos, e todos os sentimentos primitivos se revelam em silêncio molhado de sal. A família chora.
Lá fora ainda continua a chuva, mas ainda assim começa a caminhada final daquele que sobre a madeira descansa de sua luta. A rua se enche de guardas-chuvas distintos, pés molhados e silêncio sussurrante. A paisagem se transforma e o último endereço é adentrado por todos os participantes. A homenagem da morte é um manifesto à vida. Descem o corpo, a terra o abraça de maneira fraternal como quem diz "vem cá meu filho!". A luz desaparece para ele no mesmo instante que sua embalagem se esconde de nós. Mais um homem foi plantado, que suas qualidades se ramifiquem e adubem as sementes que ficaram no tempo.
Depois de todo o ritual fica a certeza da lembrança que acentua imagens antes desimportantes, momentos antes esquecidos, gestos insignificantes. Qualquer segundo de recordação é uma imensidão de sentimento. Na hora do adeus, o que resta é a magnitude da presença.

13 de maio de 2010

O velhinho da sala de espera

No consultório médico;
Entro na sala de espera e ele já estava lá sentado em seu espaço do sofá. Ali em frente àquela figura inusitada uma senhora cristã balançava a cabeça abismada com as palavras daquele senhor. No auge de seus setenta anos ele ratificava seus pensamentos sobre o mundo e sobre os tabus que o cerca. Ele confirma mais uma vez a inexistência de deus, e usa seus argumentos bem fundamentados para validar suas ideias. Ela apenas se vale de trechos bíblicos para tentar rebater. Ele cita sua vasta coleção de informações (inclusive a bíblia) e termina o dialogo se valendo da oração seguinte:
- As religiões são fundamentais para satisfazer os ignorantes.
Não me interessa avaliar quem tem a razão na discussão, mas a sensatez daquele homem de uma época diferente, filho de nossa região e das limitações que a mesma oferece. Ali, ele com os olhos abertos para o mundo demonstrava a libertação da mente humana em sua plenitude. Talvez ele morra amanhã e não conheça os campos verdejantes do céu, mas pelo visto se ele imagina algo de além, não será algo tão monótono como vendem os pregadores financeiros do ambiente celestial.
Depois de uma manhã de espera veio a hora do exame e da despedida, ele me olhou sorridente depois de um belo diálogo sobre coisas vãs e etc. Seu olhar de uma vida me mostrou como é importante valorizar o conhecimento, e agregar a nossa vida um pouco da coletividade que cada ser vivente pode nos oferecer.
O velho se foi e eu também, mas permanecemos em nossa ânsia pela busca.

2 de maio de 2010

Protejam as Largatas

O meu olhar incerto as vezes toma por certo o que na verdade é apenas um julgamento tolo e rude sobre o algo observado. Talvez eu esteja errado, e é provável, mas não permito mais o egocentrismo de ontens atrás, pois já passou da hora dessas senhoras gordas que passam as tardes na televisão deixarem pra lá a novela e cuidarem melhor de seus maridos cansados. Pronto, dado o recado tolo passemos ao post válido (por assim dizer).
...
Eu e a praça nas manhãs de outono, seria um bom lembrete pra postar sobre o abandono, mas a praça estava cheia e a vida seguia normalmente até que uma largata apareceu em minha frente. Surgiu-me o insit pra essa vertente de idéias. 
Lembra do livro velho que sua mãe não lê mais, do amiguinho da escola todo estranho que você não deu bola, da pilha velha que se escondia no fundo da gaveta... Pois tudo pode ter proveito, ainda que não seja 100% confirmado, o fato de que o tempo é o melhor remédio para coisas que o nosso coração não vê apenas sugere que não é inteligente descartar as coisas que nos parecem distantes, inúteis, nojentas ou sei lá que outro repúdio mais.
Muitas vezes aquele amigo da escola que usava o óculos fundo de garrafa é o provável engravatado de sucesso - bom marido, bom pai e grande amigo; O livro de folhas desbotadas traz as informações que até então você procurava encontrar - um segredo antigo na borda, uma lição de moral pra vida, um ensinamento pro dia; Quanto a pilha, quem sabe falte energia e o que nos resta é a possibilidade de que elas funcionem na lanterna.
A verdade é que desprezar as coisas sem a analise devida é um equivoco pra vida, pois um item perdido pode retirar o sentido dos sonhos e das realizações.
Preservem as largatas do outono para que tenhamos borboletas na primavera.
...
Lembra do recado no primeiro estrofe, talvez ele sirva para alguém que insiste em reclamar da roupa suja dos vizinhos e anda esquecendo de limpar a própria vidraça. 
Ah! Não perca a graça de viver a vida permitindo-se sempre novas possibilidades. A perspectiva é fruto de visões individuais sobre um mundo coletivo. Por isso vivo minha loucura aqui, compartilhando.

Os Amarelos do Manicômio

Estavam aos montes pelo bosque sombrio que a liberdade os oferece, era manhã e o dia começa tarde para os homens e meninos que habitavam aquele lugar. Todos amarelos em suas dimensões distantes. Um senhor socialmente vestido adentra a prisão dos alucinados, e encontrar seu filho - um menino aos 40 - e vive a tristeza e a dor que só aqueles que estão longe dos muros daquele ambiente podem sentir. 
Era dia de visitas no Hospital de Custódia e Tratamento em Salvador. Estava lá por motivos de trabalho e vi a incerteza que a mente humana pode nos proporcionar. Pode até ser que nem todos tenham adentrado malucos naquele espaço, mas com certeza as pílulas da alegria fizeram este trabalho. Não sentia piedade pelos internos, em sua maioria  criminosos - homicidas, estupradores-, mas me angustiava a dor dos entes ali perdidos. Conviver com a 'desinvenção' de uma vida que parecia possivel. Homens, idosos e meninos, entorpecidos para a sua própria segurança. Era o meu olhar da discrepância entre a realidade do mundo louco depois do portão e da sanidade dimensional que cada amarelo ali perdido a si fazia real.

- Senti-me espectador da miudeza humana.

25 de fevereiro de 2010

entre o corpo e o espectral

a noite que me consome sobre a cama desarrumada e molhada de suor é antes de qualquer outra coisa, uma estranha desconhecida. a janela aberta e o escuro que projeta ao meu olhar assustado é apenas um ingrediente desta porção escandalosa de frio e de desilusão. acordo e vejo a tevê ligada, a emissora transmite as olímpiadas de inverno, o gelo de lá da tela me engana enquanto penso que no quarto a temperatura cai consideravelmente. tento me mexer, olhar a porta, mas nada se move no meu corpo, nada além do globo ocular que percebe a luz do corredor acesa, os canadenses perdendo no hóquei, o estranho brilho do beco no escuro da madrugada. meus músculos se retraem quando escuto o barulho dos talheres, um choro de criança e um chamado distante. meu nome se espalha pelo ar e corre ao longe, na cama meu corpo morto me impede de sequer virar, e deitado de lado não vejo mais do que o já descrito. dentro me escorre um grito abafado pela loucura desse instante, e adiante toda essa insana imersão sinto um peso, um abraço de alguém que não existe, que não vejo, e que desejo não existir. meu corpo morto desfalece num piscar e tudo some.
_____________________________________________________________
Acordo e meu peito pulsa alucinado. Estive num outro momento entre o corpo e o espectral. Meu irmão me explica que é tudo natural, uma coisa do cansaço, mas me embraraço entre a lógica da ciência e a lucubração de minha inconsciência. Deixo-me desplicente, e não mais ciente do que possa parecer me deito.

8 de dezembro de 2009

- uma noite / só -

A borboleta negra pouso ao meu lado, na parede suja da área de serviço.
Será um mau presságio, ou será apenas o frágil pensamento pagão que me pega e sacode meu suposto espírito. Era tarde na noite passada, ao longe, quilômetros de distancia do que um dia fui, havia uma gargalhada macabra que me acompanhava por toda a casa, fazendo com que o silêncio sucumbisse aos meus sinais de amadurecimento. Se essa fosse uma noite aos meus nove anos de idade, quando palhaços e mascarados eram monstruosos seres imaginários, talvez eu nem dormisse direito.
O fato é que agora o tempo é o monstro que me apavora, nada de imaginário parece tão tenebroso quanto os humanóides que me habitam a rotina. Assassinos, psicopatas, políticos, sociedade abstrata e a farta coleção de ações que nos limitam a evolução temporal que nos aguardaria, isso sim me causa arrepios. Hoje é talvez o último suspiro de uma vida sem sentido.
- Não vou morrer!
Mas a ideia de encarar a morte nos pega assim meu que desprevenidos. Isso é gostoso. O incerto tem gosto de curiosidade. E a curiosidade matou o gato, apesar de suas 7 vidas...
O meu raciocínio me impede de ser menino, me faz dormir mais cedo, pois preciso trabalhar. Estranho eu querer perder a noite de sono. Mas o abandono me fez pensar em como seria bom vivenciar meu jeito moleque confuso de novo.

- Não busque lógica no que você decodifica nessas vulgares frases acima.-

*No mundo das superstições a visita de uma borboleta negra é sinal de morte.

13 de junho de 2009

noite & neblina

Veio a sexta e se foi num assobio silencioso do vento.
...
Estava eu na minha cama, janela fechada, sob o edredon, em cima das palavras de um livro nada romântico. Não seria nada estranho vindo de mim, muito menos por sexta ter sido 12 de Junho, mas o que me espanta particularmente é o fato de expor-me aqui em letras tontas de um cara envelhecido que sentiu ausência do desconhecido.
-É!!!
Não que alguém não ligou ou não tenha me dado presentes, o fato é que não há alguém de quem esperar tais atitudes.
-Se isso é ruim?
É ruim, mas não me incomoda tanto quanto transcrevo aqui nesses bytes de agora.
Na verdade o que quero é a opinião avulsa de quem passa, passou ou nunca esteve em situação parecida com a minha (simplesmente qualquer que queira comentar), de sentir a falta de um sentimento. Não é saudade de alguém, uma pessoa em específico, mas do estado de espírito que só o sentimento pode nos permitir.
Resumindo a balela: fez frio ontem, não tinha visualização de estrelas num céu coberto, e eu senti uma saudade intensa da sensação de paixão. É bom amar alguém de maneira pura e maliciosa, só não é muito fácil esbarrar com alguém que nos cative assim. Somos carentes por natureza, mas ainda bem que as emoções são passageiras.
Hoje eu acordei normal, acho que tudo era reflexo daquele clima capitalista de apaixonamento.
...
Vem o sábado e se imprime dados de um ontem atípico.

6 de maio de 2009

Pequenos Contos Modernos - II

¬O Curioso Caso de Seu Jerilson
...
Era uma noite linda dentro do templo evangélico quando em louvor o ministro iniciou a sessão de batismos da congregação. - O batismo é um rito de purificação que representa a passagem de uma vida mundana para uma baseada nos ensinamentos de Cristo. Este ritual ocorre no altar do templo, em uma espécie de piscina onde os convertidos vivem os mesmos procedimentos a que o próprio Cristo fora submetido por João Batista no rio Jordão. – Tudo ia como de costume, alguns muito emocionados, outros engolindo mais água do que o esperado, as mulheres perdendo o dinheiro gasto com a chapinha, e até um incidente um tanto estranho quando o pastor batizava sua própria sogra. A velha pelo visto ficou tempo demais submersa, fora apenas um incidente estranho, nada que levantasse suspeitas.
Mas quando todos já estavam esperando o fim da cerimônia eis que surge seu Jerilson, um senhor de 96 anos de idade. A comoção foi geral por aquela conquista da palavra. Depois de viver nove décadas e meia cometendo todos os pecados possíveis, vivendo a luxuria da vida mundana, experimentando das delicias infernais que a sociedade permite, ele havia aberto sua vida para Jesus, e a partir de agora usaria todas as suas forças na campanha por um mundo melhor. O pregador fez seu discurso enfatizando o valor da vitória, recebeu a confirmação de seu Jerilson de que era aquilo que ele realmente queria, e com o apoio de outro irmão submergiu o velhinho com certa dificuldade, já que naquela idade a flexibilidade estava um tanto comprometida.
Ele emergiu sob os aplausos eufóricos dos fiéis e seu corpo tremia alucinadamente.
Naquele momento seu Jerilson estava garantindo um pedaço do paraíso para seu descanso, porém não sabia que estava também comprando uma passagem marcada para o céu. Quarenta e cinco dias depois o pobre velho veio a falecer por culpa de uma pneumonia. Hoje não sabemos ao certo se ele se salvou antes de morrer ou se morreu por tentar se salvar.

Magra

Quando anda pela rua faz do calçamento sua passarela particular.
Ela, a magrela que a gravidade se esforça para segurar, é uma boneca frágil que encanta e desbanca qualquer que tenha uma visão presumida de seu jeito. O seu corpo de visível peculiaridade tem as curvas que alimentam os pensamentos juvenis dos homens de qualquer idade.
A amarela de meus olhos vis tem o sabor colorido de uma traquina inocente. O conjunto de partes que compõe seu modo único de se apresentar é um modelo daquilo que faz o sorriso da libido se tornar presente.
***
Lá vem ela pela rua de granito em seu passo de beleza e sedução. Vê os olhos que seguram a paisagem por instantes incontidos. Faz do tempo o registro de seu canto e me encanta sendo outra em meu colchão.
Levemente me permite flutuar.

2 de maio de 2009

Pequenos Contos Modernos - I

¬.o Ateu & Deus
...
Certo dia o ateu chegou a casa, cansado da correria de sua rotina infeliz [trabalho, família e outros ambientes sociais saturados], e decidiu utilizar dos métodos religiosos que seus conhecidos faziam uso na busca de respostas que solucionassem os problemas. Pôs-se de joelho ao lado da cama e fechou os olhos.
Naquele instante viu-se em uma locação imaginada do nirvana, algo como uma planície nas nuvens, então do nada um grande senhor barbudo, parecendo um vovô grego, se colocou a sua frente. Aquele homem falou com sua voz radiofônica, questionando o motivo da visita inusitada. Então o ateu respondeu:
- Minha vida anda em parafuso. Preciso de um olhar divino e palavras que me coloquem no rumo certo para a felicidade.
Então Deus, iluminado de graça, pôs-se a declamar versos que acalmavam aquele coração. Falou do comportamento otimista, da aceitação dos limites pessoais, da ausência do desejado como promovedor da busca, e de demais coisas genéricas que nos facilitam a aceitação do mundo como é.
Após ouvir tudo com os olhos fechados, ele vagarosamente iniciou um processo de analise do interlocutor. Olhava profundamente nos olhos de Deus. Aos poucos ficou de pé, virou-se e caminhou por sobre as nuvens. Antes de se afastar o bastante para despertar, olhou para aquela visão e bradou:
- Valeu vovô! Obrigado por nada.
Acordou só no seu quarto, ouvindo as reclamações de sua mulher na cozinha e pensando em como os políticos, heróis e deuses são tão genéricos em seus discursos. E se vendo no espelho foi ainda mais espetacular evidenciar o seu super-poder humano, a capacidade de criar algo que apenas alivie seus transtornos. Ele que nunca acreditou conseguiu criar uma imagem tão bem definida daquela figura, parecia até um curta-metragem, puro entretenimento.
O Deus que via seu criador se afastando aos poucos foi se dissolvendo como um quebra-cabeça que perde as peças lentamente, até que enfim sumiu, experimentando do seu apocalipse.