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15 de novembro de 2009

Crônicas de eLe - XXV

RETORNANDO AO SEU MUNDO

Na semana que seguiu aquele inesperado telefonema, eLe não se permitia outra coisa que não fosse devanear seu pensamento em busca de algo que o explicasse o porque de tais palavras secas e decididas numa voz tão aveludada e romântica.

O novo trabalho já não era visitado, com certeza fora substituído. Seu Tio o observava sem muita intromissão naquele vagar distante. A cidade ficara limitada nas paredes sem cor do seu quarto.

...

eLe precisava acordar para o mundo que ainda se fazia presente. Foi um novo telefonema que o reanimou em sua luta. Dessa vez o prefixo era de um lugar mais distante. O Tio havia informado a sua mãe da situação. Após uma longa conversar com a mãe, eLe decide que precisa seguir em frente.

Passa as duas semanas seguintes em busca de um novo emprego. Eugênia já ocupa um espaço menor na sua mente, mas ainda existe uma imensa dor no seu peito. Nada dá certo.

Após três meses e meio do último encontro, apenas um telefonema pra encerrar todo o seu amor. Desempregado, sentindo que está abusando do carinho de seu Tio, sem as mesmas ambições que o habitavam no dia da chegada, eLe decide dar um telefona para reiniciar sua história.

...

-Alô!... Mãe,... ‘tô’ voltando pra casa.

Crônicas de eLe - XXIV

O TEMPO E A DISTÂNCIA


Já faz dois dias que todo o fantástico e infeliz dia de entrega e descobertas o assolou. Até agora nenhuma nova informação. eLe continua desempregado, seu orgulho não aceita os pedidos de Eugênia para que aguarde até que seu pai volte atrás em sua decisão. Já não se imagina na empresa de Seu Arnaldo. Já não sabe se realmente foi correta sua decisão ao impedir a fuga do delinqüente que roubara a loja em sua primeira visita, Já não sabe se aquele homem preconceituoso merecia sua ajuda.

Saiu atrás de um novo emprego, mas nada apareceu.

Eugenia não o ligou. Como poderia ela agir dessa maneira depois daquela maravilhosa manhã na sala de visitas. O que será que aconteceu para que não possa mandar nenhuma informação, ter nenhum contato.

...

A semana vai se passando lentamente e nada acontece.

Somam-se os dias em que depois da busca por emprego eLe vai até o supermercado esperar alguma visão de sua amada, mas ela não tem ido lá desde o dia da reunião, é o que descobre por meio de um colega empacotador.

...

No meio da segunda semana ele é admitido no quadro de funcionários de uma panificadora de médio porte. O trabalho fica do outro lado da cidade, e agora eLe já não pode espiar a saída do supermercado. Contudo consegue por meio de alguns amigos conquistados na antiga empresa o endereço do ex-patrão, ou se preferir, da sua amada.

Todos os fins de semana vai até o endereço. Quando não encontra a casa vazia e silenciosa, encontra o barulho contido por trás dos altos muros que a protegem. Nenhum sinal de Eugênia.

eLe sabe e sente que ela o ama, mas alguma coisa a impede de encontrá-lo.

...

Um mês e vinte e quatro dias depois do último encontro, ele já não está mais na panificadora. Agora trabalha como atendente em uma academia de ginástica que fica nas proximidades do centro da cidade. eLe volta pra casa com o mesmo pensamento das últimas semanas: “que diabos está acontecendo com Eugênia?!”.

Chega a casa e encontra seu Tio preparando o jantar.

...

- Oi meu lindo! Como foi seu dia?

- Oi Tio! Foi tudo bem.

- Ah, antes que me esqueça uma amiga sua ligou perguntando por você. Eu disse que você chegaria por volta das oito e meia da noite, e ela me falou que ligaria pra você.

- Ela se identificou?

- Não...

...

Nesse momento o telefone toca. Seu Tio lhe indaga com o olhar e volta a seus afazeres. Ele como se respondesse aquele olhar se encaminha até o aparelho que fica no corredor.

...

- Alô! Quem Fala?

- Oi, aqui é a Eugênia. Eu gostaria de falar com eLe.

...

Um calor percorreu o corpo do garoto ao telefone, ele abriu um sorriso alegre e quase se esquece de responder.

...

- Sou eu, Eugênia. O que aconteceu com você?

- Oi. Não aconteceu nada, mas, por favor, não vá mais ao supermercado, nem fique esperando me encontrar aqui na rua de minha casa. Me prometa que vai fazer isso que lhe pedi. Meu pai está furioso com você e não sei o que pode fazer se encontrá-lo. Não tente falar comigo. Busque sua felicidade sem mim. Adeus...

...

O telefone fica mudo. Ele espera com o aparelho ao ouvido como se tivesse a esperança de ouvir alguma outra palavra.

Mas há apenas o silêncio.

13 de novembro de 2009

Crônicas de eLe - XXIII

O ÚLTIMO ENCONTRO

- Eu preciso falar com você.

Ela fala e não escuta nada. eLe ainda está paralisado com a surpresa de tê-la ali. Como ela poderia saber o seu endereço, se nunca foram juntos até sua casa. E o mais importante, o que ela realmente queria com eLe.

- O que você faz aqui e como você sabe onde moro?
- Peguei seu endereço na empresa... E eu preciso falar com você.
- Falar o que? Seu pai não vai gostar de saber que esteve aqui. E porque você não me disse que seu pai era o meu patrão?
- Por que eu tive medo que você me deixasse.
- Deixar você?!
- Tive medo que você ficasse com medo de perder o emprego e me abandonasse. Você não sabe como meu pai me prende e fica querendo controlar a minha vida. Todos os namorados que tive, ele afugentou, e o pior é que tenta me apresentar uns ‘almofadinhas’, filhos de seus amigos ricos.
- Parece que eu não sou o namorado ideal pra você. Seu pai não me quer perto de você.
-Mas eu quero você!

eLe se perde nas palavras macias e apaixonadas de Eugenia. Ali já não havia o pensamento deturpado de uma garota usurpadora. Deixava de ser a vilã para tomar seu verdadeiro lugar na história, a mocinha encantada que eLe amava.
Ela o beija. Eles se encontram na dança dos lábios e do corpo. Anulam todos os pensamentos anteriores a aquele momento. Aquela ação repentina torna o ambiente novo e colorido. Eles se permitem um novo sentimento, o sentimento de doação. Param para um olhar singelo e sincero que revela os desejos íntimos e coletivos que pairam na sala de visitas.
Agora, ambos tomam a iniciativa de se permitirem o desejo e a realização. eLe a beija como se soubesse que aquela seria a última vez. Toma para si o corpo delicado de menina que exala a vontade carnal. Ela o deseja tanto o quanto, e durante o beijo se despe do vestido florido que a resguardava. Agora sob as peças intimas eLe a vislumbra como uma aquarela romântica, um quadro perfeito de sua historia de amor.
Os dois se consomem em movimentos que lembra o balé celestial dos anjos. Os gemidos são poesias proferidas em melodiosos versos. O suor dos corpos se encontra como um elixir que soma os indivíduos, tornando a imagem borrada ao olhar desavisado de quem imagina. No momento do amor e do sexo, o que existe é uma massa humana inconsciente e repleta de emoção.
Durante todo o tempo juntos na sala, com a porta ainda aberta, eles são felizes.
Ofegantes e cansados fisicamente, os enamorados sabem que nada vai ser como antes. Fora daquelas paredes um mundo menos promissor os aguarda, mas do que vale imaginar as incertezas futuras se o agora pode ser tão majestoso. Eles são um do outro, agora, e eternamente na lembrança desse amor.

Crônicas de eLe - XXII

MÁSCARAS E CORAÇÕES
Rumando em direção alheia ao pensamento desconexo do momento de descoberta, seu corpo por osmose se direciona ao ponto de ônibus. eLe volta pra casa.
Nesse caminho o processamento das informações esclarece nitidamente o que realmente aconteceu naquele escritório. Um pai, um patrão, descontente com as escolhas de sua filha. Como será possível que alguém com tantas possibilidades vai se encontrar com um outro alguém que vem de um canto distante do mundo, sem muito a oferecer, sem perspectivas futuras visíveis de sucesso, sem sequer um nome que mantenha uma falsa impressão de poder?
eLe pensa:
*
¬O Seu Arnaldo é um escroto com toda a razão. Se eu mesmo tivesse uma filha naquelas mesmas condições nunca permitiria que um zé como eu viesse a possuí-la. O que eu posso oferecer a ela a não ser amor. De onde eu venho sei que o amor não enche a barriga. E alias, sou um perdido no mundo gigante que ela vive, mas o inverso é uma giganta no meu pequeno mundo de pobreza e ilusões. Me apaixonar foi um erro. Talvez ela tenha apenas aproveitado de minha inocência para experimentar de uma pureza ingênua dos sentimentos. Mas agora isso acabou. Acho que nunca mais vou vê-la.
*
Por mais apaixonado que o nosso personagem possa parecer, existe no seu intimo uma clara ação lógica de racionalidade que uma vida dura oferece. Muitas vezes é nos recantos mais distantes do globo que a distinção de uma ação correta vem nos surpreender. Longe dos mecanismos de uma sociedade fajuta, vive a graça do compreendimento das massas e de suas regras sociais. O jovem matuto amadurece mais rápido.
Ele chega à casa vazia de uma manhã normal. Fecha-se no seu quarto de marfim que agora é um calabouço do inferno pessoal. Sente o desgosto de suas aspirações. Sem trabalho, sem namoro, sem projetos futuros.
Alguém entra em sua casa. eLe escuta o barulho da porta e não se lembra de ter fechado a casa após adentrá-la. Sai correndo em direção à sala, com medo e raiva. Só faltava agora ser roubado por um vagabundo qualquer que se aproveitou de sua distração. Ao chegar à sala eLe empalidece e paralisa.Eugenia está ali com os olhos mareados de lágrimas.

7 de novembro de 2009

Crônicas de eLe - XXI

O ESCRITÓRIO E AS REVELAÇÕES
São 09:50 AM. eLe chega ao trabalho, se encaminha pra a diretoria. Sobe as escadas, pensativo, mas a esse ponto já desistiu de descobrir o que viria a acontecer. Espera os cinco minutos restantes de pé em frente à sala de Seu Arnaldo. A secretaria já havia sido avisada, e pontualmente pede a eLe que se encaminhe ao escritório.
Após bater a porta e ouvir uma permissão, eLe adentra o recinto sem entender os motivos que o levavam até aquela situação. O chefe pede para que ele se sente, e não perde tempo com muitos rodeios.

- Meu caro, o que lhe traz aqui é uma oportunidade sua e uma necessidade da empresa. – até aqui parece que tudo vai bem – Então, analisando alguns dados seus, percebi certo potencial. Devo lhe dizer que você já faz por merecer uma promoção, contudo não há essa vaga aqui na sede, mas em uma das filiais já há algum tempo procuramos alguém para ocupar este cargo.
Estou lhe oferecendo uma chance de crescer. Então o que você me diz?
- Qual a distância da filial?
- A loja fica no extremo oeste do estado, cerca de 650 Km.
- Seu Arnaldo, agradeço todos os elogios e a oferta, mas minha vida está começando a se organizar aqui. Não tenho hoje a intenção de sair da cidade. Então se o senhor não se importar prefiro continuar ocupando o meu cargo aqui mesmo.

Parecia que a decisão de eLe tinha a convicção de quem sabe o quer. Ali, eLe sentia que não podia descartar a idéia de que Eugenia poderia ser perdida. Entre o sucesso e o amor, a disputa não foi tão intensa. O coração falou mais alto.

- Infelizmente meu jovem, esse é um problema que tenho também que lhe informar, caso não aceite, não poderei continuar oferecendo o seu cargo aqui. Devido a algumas decisões de corte, alguns funcionários serão demitidos.

Agora assustado, eLe não consegue entender o que está acontecendo. Há cinco minutos estava sendo promovido pelo seu excelente trabalho, e agora esta sendo demitido para contenção de gastos. Alguma coisa não se encaixava nessa história.

- Mas seu Arnaldo, todos os meus colegas de função também serão demitidos?
- Não se preocupe com os outros. – agora o chefe já não imprime um semblante tão amigável – O problema aqui é seu. É pegar ou largar!
- Eu já disse ao senhor, não posso sair agora da cidade.
- Então infelizmente você está demitido. Na saída converse com a secretaria que ela lhe indicará com quem deve conversar para ter seus direitos. Boa sorte!

Aquele garoto nunca viveu uma situação como essa. Nada fazia sentido pra sua compreensão. eLe ficou tão confuso que se levantou e não falou mais nada ao chefe. Encaminhou-se até a saída, e ao abrir a porta encontra Eugênia conversando com a secretária.

- Eugenia!? O que você faz aqui?
- Eu... Vim ver meu pai.

Até aquele momento não sabia que a sua paixão personificada em menina era também filha de seu chefe. Agora milhares de pensamentos passavam por sua cabeça se encaixando na busca de uma explicação para o que acabará de acontecer ali dentro no escritório.

- E você meu amor, o que veio fazer aqui?

eLe olhando para dentro do escritório ainda com a porta aberta, vê o rosto sério e não mais amigável de seu patrão.

-Vim ser demitido.

6 de novembro de 2009

Crônicas de eLe - XX

O TELEFONE
eLe acorda mais cedo do que o habitual. O telefone toca desesperado antes de o galo cantar. Sem muito ânimo, mas assustado (ligações em horários estranhos são mau presságio) ele atende. Do outro lado da linha alguém parece estar em dúvida do que falar. O silêncio ocupa a linha telefônica até que uma tosse afugenta-o:

- Hum! É da Casa de eLe?
- Sim. Quem quer falar comigo?
- Sou eu, Arnaldo.
- Diga seu Arnaldo, o que aconteceu à uma hora dessas?
- Nada de muito importante meu filho. Estou ligando pra informá-lo que você não precisa vir tão cedo amanhã. Preciso conversar com você, tenho uma oferta a lhe fazer. – eLe sente que aquelas palavras não saiam com muita empolgação da voz do seu patrão – Volte a dormir. Estarei lhe esperando amanhã às dez horas. Boa noite!
- Boa noite!

eLe desliga o telefone, e o barulho agora não é mais externo. Na sua cabeça um milhão de pensamentos se confronta, mas nenhum consegue presumir o que estaria por acontecer.
Cansado, eLe apaga.
Acorda já ansioso pela reunião. Arruma-se como de costume, pega o buzão e vai de encontro ao principio da desilusão.

29 de abril de 2009

Crônicas de eLe - XIX

DESGOSTO
Diante de uma representação tão genuinamente verdadeira do amor na sua essência juvenil da irracionalidade e realização que preenche a alma e se resguarda no abstrato poço cardíaco, apenas um personagem não parece satisfeito. Seus motivos são claros, mas não morais.
Aquele que não se alegra com a onda calorosa de felicidade que os jovens irradiam é o pai da moça. O homem sabe que seu pensamento não é correto, mas age assim por impulso ou por omissão de seu caráter que nunca funcionou por caprichos do sentimento. O pai e o patrão de eLe eram a mesma pessoa, o seu Arnaldo , dado que o garoto não conhecia.
Percebendo os comentários dos outros empregados, seu Arnaldo estava muito insatisfeito com tal relacionamento, e seu pensamento não se conformava.
*
¬Como poderia sua filhinha, bem criada, conhecedora do mundo e dos caprichos de sua classe social se permitir um elo com um rapaz de posição inferior. Apesar de sua beleza exótica e seu caráter até então inquestionável, eLe é um empacotador ‘sem condições’ ao lado de uma princesa que sempre realizou as suas vontades. Seria essa mais uma vontade dela, enfrentar seus pais por meio de um namoro indesejado?
*
Sem ter convicção de que atitude deveria tomar, levando em conta o comportamento tão correto que o rapaz apresentava no trabalho, além é claro do episodio em que se conheceram, deixou que as coisas corressem naturalmente. Na verdade ele imaginava que aquele interesse da menina acabasse logo, como acontecia com seus presentes, como um desejo fútil e passageiro.
...
Enquanto isso os enamorados continuavam se amando como se cada dia fosse o último, sem saber que este se aproximava

25 de abril de 2009

Crônicas de eLe - XVIII

NOVAS NOITES, NOVOS DIAS
Aquela noite fora a melhor coisa não imaginada que poderia lhe ocorrer. eLe, ainda flutuante, retornava ao seu lar com um sorriso bobo na face. Já se passava das vinte e uma horas e o tio preocupado sem notícias do mancebo apaixonado o aguardava na sala de estar. Invadindo seu lar foi logo explicando o que ocorrera, nem deu ouvidos aos conselhos e sermões de seu tutor.
O menino tinha a felicidade estampada nos olhos, e isto lhe impedia de ver qualquer outra coisa que não fosse a imagem encantadora de sua amada. A doce Eugênia não tinha idéia do que ocorria com eLe, mas o mesmo queria acreditar que onde estivesse ela, estaria vivendo a mesma sensação de euforia incontida.
Banho e cama. Deitado ainda saboreava as lembranças do encontro mágico. Aos poucos foi se permitindo encontrar o sono, mas não se desfez em nenhum momento daquele sorriso fácil que lhe escapava dos lábios – a prova do crime de seu estado de amor.
...

Os dias se passaram e em todos eles algo novo se imprimia eterno, a presença da menina de mãos de orvalho. Os dias no trabalho eram intermináveis na espera para que logo estivessem juntos, e ao fim de cada dia um novo cenário urbano era descoberto.
Já não se fazia segredos aos colegas e amigos, a rua estava cheia daquele amor juvenil. Ruas, becos, pontes e muros incontáveis já sabiam de seus sentimentos. Na flor da mocidade o amor tende a ser uma coisa de exposição absurda. Nem os astros do céu podiam fingir não saber.
E tudo rumava agora lentamente para que ao máximo pudessem apreciar seus momentos. O mundo, agora confortável e leve, era um pomar exótico para as observações do menino do sol. Havia encontrado seu paraíso.
Mas para tudo na vida existe um porém.

Crônicas de eLe - XVII

OS LÁBIOS
Caminhavam a qualquer lugar na noite que os abraçava sutilmente. Falavam sobre suas vidas, do que gostavam. eLe descobrira que a menina ainda estudava o colegial, que gostava de voleibol e que viajava sempre para o sul do país para casa de parentes. Ela por sua vez, descobriu que eLe era nordestino, já havia se formado no ensino colegial, tinha pretensões de cursa uma faculdade, mas ainda não sabia em que, e que tinha ido até o seu mundo em busca de novas perspectivas.
Eram dois personagens típicos de um romance inviável, locais, culturas e visões distintas do mesmo ambiente. Aos poucos as vontades daqueles extremos iam convergindo ao mesmo pensamento. Já estava ficando mais tarde do que deveriam permanecer na rua, estavam em um parque da cidade e ela teve que se despedir. Caminhavam ao ponto de taxi quando eLe inesperadamente deixou escapar uma indagação:
...
- Por que motivos estamos aqui neste pedaço de mundo, juntos, se somos tão diferentes? – eLe instantaneamente se repreendeu por ter feito tal pergunta.
...
Ela demorou-se o observando encabulado, e após ter certeza do que deveria dizer, o olhou diretamente, foi se aproximando de sua face, encostou seu rosto no dele como um gato carente a procura de carinho, deslizando sua bochecha na dele. Aos poucos seus lábios foram se aproximando daquela boca surpresa e ansiosa. Ali, unidos delicadamente, os lábios estavam vivendo a efêmera confirmação da felicidade.
Então se afastando ela respondeu:
...
- Porque eu gostei de você.
...
Eugênia correu para o taxi mais próximo enquanto ele olhava encantado sem entender o que havia acontecido. E quando taxi já começava a se mover ela com parte do corpo para fora, sorriu e bradou:
...
- E queria muito te beijar!
...
Bobo, eLe se encaminhou para o ponto de ônibus urbano. Olhava para as edificações a sua volta e não conseguia definir suas cores. Estava delirando em meio a um arco-íris particular.
E ainda existem aqueles que buscam resolver a equação do coração, mesmo sabendo que para isso não existe lógica.
...

5 de abril de 2009

Crônicas de eLe - XVI

O NOME DO SONHO
O fim do serviço se aproximava e a pressa em seu coração ganhava novos ritmos que atravessavam a harmonia do tic-tac. O relógio gigante no alto da parede no centro do mercado era um outdoor permanente, o digital no braço de eLe parecia mais pesado pela angústia do reencontro. Havia uma magia percorrendo o ambiente. Até o crepúsculo que se anunciava próximo pelas portas de vidro empolgavam o olhar apaixonado do menino que acabara de chegar a sua festa surpresa.
Chega o horário encantado e eLe parte desesperado para a saída sul. Seu coração palpitando mais forte a cada passo naquela direção. Mas no meio do caminho algo atravessa seu pensamento.
...*o que vou dizer a ela? o que posso oferece-la?
será que ela ainda estará lá?*...
Chega no local marcado com os batimentos cardíacos em estado normal; olha ao redor e não encontra ninguém. Era apenas mais uma ilusão acreditar que aquele bela menina estaria dando chances a um zé qualquer. A cabeça se abaixa com um a de um perdedor envergonhado de seu próprio sonho.
Duas mãos se põem sobre seu olhar. Mãos macias, cheirando a orvalho, dá até pra sentir a respiração leve que encosta a nuca. Ele se arrepia e aproveita aquele momento sem saber ao certo quem possa ser. Então aos poucos a noite vai nascer iluminada.
...
- Quem é?
- Sou eu, Eugênia!
- Quem!?
...
Ela desvenda seu olhar e apresenta a face e o nome, significativamente são pares. Peças complementares do mesmo ser divinal. A nobreza da beleza ingênua e o doce da humildade real. Era a menina de seus sonhos. eLe parado ficou por uns segundos apenas admirando sua face tão perto. Ela corou e calou-se, esperava alguma palavra. Então foi preciso acordar para a realidade e se expressar. eLe não pensou, apenas disse:
...
- Oi!... Você é linda!
- Obrigada! - Ela ficou ainda mais vermelha -Você pretende ficar me olhando ou podemos ir a algum lugar?
- Oh, me desculpe! É... Onde podemos ir?
- Não sei. Hoje não tenho pressa de voltar pra casa. Estou à deriva, e o leme está sob seu controle.
...
Ali começava a mais fantástica viagem que ele poderia imaginar no novo mundo. Rumava ao desconhecido mar do amor. Era um tripulante de primeira viagem e a sua companheira lhe deu o mapa do tesouro. Foi sem medo.
Na vida é preciso mergulhar.

15 de março de 2009

Crônicas de eLe - XV

NOVOS SONS, MESMO OLHAR
Perdido na imensidão de luz daqueles olhos, eLe mal percebe que o mundo gira. Sua boca se esforça para pronunciar uma palavra qualquer.
" - De que estilo você gosta?"
Saiu sem pensar, mas foi o suficiente para engrenar um dialogo. Aos poucos aquilo se tornava mais agradável. Nunca imaginara que aquela perfeição abstrata pudesse parecer uma garota tão simples. Ela abusava de seu conhecimento musical, e quando citava as bandas e músicas internacionais, eLe fazia cara de quem entendia tudo. Não por que queria agradar, mas somente por que a feição de entendido é a mesma que a dos bobos. E ali em frente aqueles faróis luminosos de íris verdes, eLe já não escutava nada, já não enxergava nada que estava ao redor.
De repente acordou de sua fantasia e percebeu que já havia passado a hora do almoço. Estava dentro do mercado e se atrasou para o serviço. Sem jeito, nem vontade de pedir licença, informou-a da situação e se retirou como se houvesse apenas prestado um favor a uma cliente. Caia assim num pesadelo real, doía o seu peito. Poderia ter sido a única chance de vê-la novamente e eLe saiu apático.
Mas antes que sumisse do campo de visão, ela abriu-lhe a porta do céu.
“- Ei! Que horas você sai daqui? Ah, não importa!
Estarei esperando na entrada sul.”
E os sorrisos afirmaram o trato.

10 de março de 2009

Crônicas de eLe - XIV

A GAROTA DOS CD’S
Por vários dias aquele coração se pôs a escutar sinais de romances distantes em canções sobre amores outros, onde a angustia, a saudade e a ilusão são alimentos para uma alma ferida. O seu peito passa a se acostumar com a ausência física da desejada, e a perfeição da pessoa amada vai ganhando novas características numa projeção sonhadora.
-
“...é quando deslumbrante ela entra em meu olhar. Sua roupa balança levemente trazendo-me a lembrança de uma pintura expressionista: a bela dama que caminha sobre o campo florido. Devagar se aproxima de meu corpo, guardando um brilho intenso no olhar que despeja em minha íris. Quando o encantamento me paralisa por completo, sua mão sobre a minha me faz sentir a ternura intensa de estar vivo. Falta pouco para que me complete. O sangue ferve ao mesmo tempo em que o coração desliga. Sinto um frio na barriga que me devora sem jeito. Mas aos poucos do peito vem se espalhando uma agitação, uma loucura incontida. Já posso sentir seu açúcar. Sem respirar me despenco sobre seu rosto, em direção a boca. Ele me olha e um sorriso me diz que ‘sim’. Então...”
-
Enquanto a imaginação proporcionava a eLe uma sensação única de paixão adolescente, aquela que nos captura pra um mundo encantado e desliga nossos sensores da realidade, na ala de CD’s a vida continua. Ali desligado, observando os encartes e vivenciando sua ilusão, eLe não percebe que sua alucinação se materializa ao lado. Mas a voz desconhecida iria roubar sua atenção e frear bruscamente seus batimentos cardíacos.
- “Você me indicaria que música?”

8 de março de 2009

Crônicas de eLe - XIII

OS DIAS SE REPETEM
Semana após semana, dias e dias e dias... O trabalho consome as expectativas e sonhos do menino deslumbrado. eLe já não vê o sol com tanta frequência, a brisa também perde espaço para o ar condicionado do ambiente fechado e o colorido das prateleiras forma a paisagem que o limita. Tudo se resume numa rotina intensa onde o suor só não se apresenta por motivo do clima, mas as ocupações criam barreiras para atividades particulares. O mundo acontece atrás das portas, mas eLe já não pode sair.
Lá dentro, entre as paredes do complexo, tentando aproveitar do pouco tempo de sossego, eLe lê sinopses de livros e filmes, receitas nas embalagens, contra indicações das mercadorias. Com essas informações um simples empacotador se torna mestre na arte de persuadir. Indica produtos, sugere pratos especiais, faz crítica de cinema e ataca de comentarista literário. eLe faz o que pode para valorizar o seu serviço.
Sobre os cds fica um tanto distante sempre que alguém pergunta alguma coisa. Aquela ala do mercado traz a lembrança da menina angelical do dia da conquista. Talvez seja por essa lembrança que todos os dias, semana após semana, eLe gaste parte do seu tempo pro almoço observando os cds e os clientes que ali se mostram. A música do amor ainda toca em seu coração, no alto volume da esperança.
Quem sabe um dia haja dança.

Crônicas de eLe - XII

ENFIM O FIM DE SEMANA
Depois de uma semana de empolgação e cansaço eLe têm sua oportunidade de relaxar. Um fim de semana diferente de todos os outros, pois agora este é seu único tempo livre, e agora eLe tem a certeza de que uma outra semana de muito trabalho o aguarda.
Quando soube que seria empacotador não imaginava o quanto aquilo iria ser pesado, já que na verdade um empacotador é um faz tudo. Entre uma sacola de compras e outra, tem que descarregar e carregar mercadoria, atender bem um cliente e ser prestativo, fazer um bico de ofice boy e estar lá atrás do caixa sempre que preciso. Isso ainda sem contar com o minúsculo salário. Porém eLe está feliz, pois agora, ainda que pouco, o dinheiro é seu e não precisa mais depender da generosidade de seu Tio.
Agora já se sente homem, dono de seu nariz. O orgulho lhe preenche o peito, e nenhum sentimento é mais masculino do que esse. É como dizem: “o trabalho dignifica o homem”.

14 de fevereiro de 2009

Crônicas de eLe - XI

O 1º DIA DE TRABALHO
Acorda cedo por culpa da ansiedade, afinal hoje é um dia diferente. Depois de semanas de busca, eis um bom lugar. Veste-se, a farda ainda com cheiro de nova, e sai de casa como um grande empresário rumo ao seu trabalho. Tudo lhe sorre magistralmente. É seu momento mágico naquele novo universo.
Cada rua percorrida, cada esquina contornada lhe traz a sensação de euforia de um vencedor. Lá vai ele ao encontro com o futuro que antes parecia impossível. Vai conquistar seu lugar ao sol.
eLe chega no mercado e um funcionário lhe indica a sala do chefe. Sobe a escada ansioso por suas tarefas. Dois minutos depois desce as mesma e toma seu lugar no Caixa 13. Empacotador.
Tudo tem seu preço, esse é apenas o início de sua caminhada.

8 de fevereiro de 2009

Crônicas de eLe - X

UM DOMINGO DE CONQUISTAS
Chega o domingo, dia universal do acordar tarde. eLe, como todos de sua casa (seu tio e a cadela Zana), acordou tarde e foi direto a televisão. Tudo parecia comum, mais um dia sem novidades, até que seu tio, o cozinheiro oficial da residência, em companhia de sua namorada percebeu que faltavam alguns ingredientes para o almoço (faltava tudo). Juntos foram todos em direção ao supermercado.
Chegando lá seu tio e Carla (a namorada) foram em busca dos materiais para o almoço, enquanto eLe passeava pelo espaço dos CDs. Entre um Caetano e um Skank veio a sensação de que estaria sendo observado, olhou em volta e viu as câmeras de segurança, voltou então despreocupado seus olhos para as capas de CDs em busca de novidades, quando de repente percebeu por acaso que ali também estava uma garota, às suas costas, com alguns CDs nas mãos. Olhou disfarçadamente e viu que ela também o estava olhando, eLe ficou sem jeito e percebeu que ela também. Aquele era um daqueles momentos mágicos que acontecem nas nossas vidas e que nunca voltam, e eLe sabia disso; no seu canto estava tomando coragem para falar com ela, então depois de alguns segundos se virou, caminhava em sua direção, quando ouviu o alarme de roubo do supermercado tocar. eLe se assustou, ela também, e eLe não a viu sumir. Atordoado, não saiu do lugar, enquanto ouvia os gritos dos seguranças. Passos fortes pareciam vir em sua direção, quando um jovem ladrão apareceu em seu caminho, e atrás dele dois seguranças que lhe pediam que o impedisse de fugir. Assustado e sem jeito eLe pulou no ladrão derrubando-o e o imobilizando com a ajuda dos seguranças. O garoto saiu algemado e com um olhar irônico olhava para eLe.
Todos o aplaudiram, e eLe sem graça sorria. Sentia-se ao mesmo tempo envergonhado e orgulhoso, quando viu um senhor alto e forte vindo em sua direção apertar-lhe a mão, era o dono do supermercado. O senhor sem fazer rodeios, o agradeceu e perguntou o que ele desejava como recompensa. Sem pensar muito eLe respondeu: -Um emprego. O dono sorriu sem entender e perguntou novamente, eLe respondeu o mesmo, então aí o velho senhor disse-lhe:-Bom, eu sou Arnaldo, seu novo patrão!Um súbito sorriso amanheceu em seu rosto e tudo parecia obra do destino. Conversou com seu Arnaldo e marcou de resolver tudo no dia seguinte. Junto com seu tio e a namorada voltou para casa tão satisfeito que chegou a esquecer da garota dos CDs. Mas tudo era festa e o caminho de volta pra casa ficou ainda mais bonito.

Crônicas de eLe - IX

O COMEÇO DA BATALHA - parte II
Aquele dia parecia interminável e eLe não via a hora de achar o seu emprego. Não foi um bom dia, não houve emprego, houve apenas um cansaço e indignação do pobre garoto que acreditava num mundo justo e com espaço para todos.
Foi pra casa cheio de duvidas. Não sabia mais se tudo daria certo ou se o seu caminho de volta estava mais próximo do que imaginará. Porém eLe sabe que o desanimo é o combustível do perdedor e não se deu por vencido.Veio a terça, a quarta, a quinta e até ali nada de novo aconteceu, apenas portas na cara como de costume. Na sexta-feira eLe acordou acreditando que aquele seria o dia, - o dia do inicio do resto de sua vida, o dia em que os seus maiores sonhos começariam a se concretizar - mas logo o dia passou e com ele toda aquela euforia. Veio então o fim de semana.

28 de janeiro de 2009

Crônicas de eLe - VIII

O COMEÇO DA BATALHA - parte I
Depois de maravilhosos dias de passeio, chega à hora de iniciar a verdadeira busca, um emprego. O seu fantástico mundo vende a imagem de vida fácil e conquistas rápidas, pena que eLe ainda não descobriu a verdade, mas ela logo verá. eLe acorda cedo, e já vestido toma seu café, se despede da empregada e vai a luta. Com um jornal na mão, lê atenciosamente os classificados, procura alguma vaga na área que eLe mais se identifica (eu esqueci de informá-los, mas o sonho dele é trabalhar com artes; cinema, televisão, rádio...), mas não lhe parece nenhuma opção.
Depois de procurar cuidadosamente por uma vaga no mundo das artes, ele encontra algo menos interessante, porém não menos importante para o funcionamento do sistema nacional de trabalho, uma vaga de vigia noturno. Acreditando ser aquela a profissão que estaria reservada por DEUS a ele, vai todo contente ao escritório da empresa contratante. Estranho é que pouco tempo depois de ter entrado todo sorridente por aquela porta, sai dali com uma cara totalmente entristecida, algo deve tê-lo derrubado, mas o que?
Pediram-lhe algumas informações sobre seu currículo e disseram-lhe que eLe não estava capacitado para o trabalho. Estranho já que um vigia noturno precisa, em suma, ter atenção e um bom preparo físico já que automaticamente também é um segurança, e isso eles tinha. Sempre foi atencioso e se não era forte ao menos tinha um físico legal. A empresa alegou que por não ter certificado de curso de informática e não saber falar inglês, ele não estaria capacitado pra tal importância. O engraçado é que eles contrataram um baixinho magrelo.

Crônicas de eLe - VII

NOVO
Tudo é tão lindo quando é coberto de novidades. eLe entra no carro e me espera, eu entro, fecho a porta, rodo a chave, ligo o motor e inicio a mais nova trajetória de sua vida. Passam casas, sítios e mercados, passa posto, passa asfalto e tudo lhe parecia comum até que aquele monte de concreto invade e enche seus olhos de brilho. Tudo cinza, mais um lindo entrelaço de tons que nunca antes o havia tomado e agora o cercava sem limites, sem espaço para fugas. eLe parece feliz ou ao menos distraído, já que aquela noite não foi das melhores. Ali, entre eLe e o novo não havia espaço para saudades, havia apenas a ilusão de um paraíso.

23 de janeiro de 2009

Crônicas de eLe - VI

ALVORADA
Cinco e meia da manhã, o sol mal acordou, mas eLe quase não dormiu. Deitado eLe olha pro teto e descobre que não está mais em casa, sem jeito e com medo de fazer barulho eLe vai na ponta dos pés até o banheiro com sua escova na mão; acende a luz, abre devagar o armário, ouve assustado o ranger da porta e tenta pegar o creme dental, enquanto isso pensa preocupado que pode estar me acordando. Rapidamente coloca o creme na escova, molha-a na água e começa a escovar.
Aos poucos começa a se observar no espelho e muitas idéias tomam conta do seu pensamento. Triste por lembrar de sua mãe vai até a janela e vê pela vidraça o nascer calado do sol. Só, eLe mostra toda sua fragilidade. Sentado no chão do quarto, eLe chora.