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22 de abril de 2013

Extremidades Fronteiriças do Limite



- descobrir-se é uma ventura insanamente adorável.

No desejo a inocência é infante e a maldade é adulta, a juventude é o tempo da malícia tolerante. Um adolescente que busca se conhecer vai além de todas as pistas para ter o que não sabe. Cada curva, cada noite, cada segredo que se guarda é uma arma na incerteza do disparo. Cada beijo, cada toque, cada vontade que se exalta é sem data a lembrança que se esquece, ainda que o olhar não passe despercebido pela nostalgia de um relembrar.
Dois jovens afoitos, na suspeita encabulada de um coito, escorregam pela rua, desconfiados e tagarelas. A menina magra que floresce lentamente não pressente as cicatrizes desse instante; o garoto alarmado pelo prêmio conquistado quando não era previsto, sente um misto de heroísmo e malandragem. Ambos crescem nessa noite bem além de suas idades. Sentem o gosto do prazer e o temor do revelar. Num novo encontro é aquele encanto encabulado de travessos perdoáveis, guardam mudos por saber que não sabem o que falar. Ambos olham e já sabem o que querem repetir.
Depois se cresce, envelhece-se na verdade, e a pureza inocente se despe em maldade, maldade boa, saborosa, mas sem o charme da insegurança. Pois do adulto e da criança pressupõe-se que são convictas as ideias, ainda que de inversas belezas. Mas ao adolescente é permitida a imprecisão da insonsa safadeza. 

12 de outubro de 2011

Sr. ERRADO

Existem pessoas que nasceram iluminadas por estrelas mágicas que só atraem belezas e amores, existem os que infelizmente nasceram em dias nublados e tem a difícil tarefa de conviver com a chuva diária de sentimentos. Eu não sei ao certo o tempo, mas quando nasci garoava levemente e ao fundo era possível ver o sol brilhar, daí minha triste e enfadonha sina de ser o mestre em desiludir, em amar e não cuidar, em ser um popular solitário.
Não, não quero me fazer de vítima. Nessa história infelizmente eu sou o vilão, aquele que cultiva as flores para vê-las murchar no vaso sobre a mesa. No meu íntimo tenho essa infeliz facilidade devido a paternalidade com que cuido das queridas belezas que me cercam, mas na verdade sinto que sou doutor mesmo é na arte de sacrificar meus desejos em prol da certeza de que não serei eu a machuca-las, mas inevitavelmente é isto que acabo causando.
A dor proveniente da desilusão é a ingrata dúvida constante que não tem resposta devido o meu turbilhão de incertezas particulares. Eu sou o homem dúvida, o ser incerto, o mais perto do que se pode chegar da indefinição. O Sr. Desilusão que me criei é um monstro ingrato que invade o peito das donzelas indefesas e intocáveis que eu nunca deveria conhecer. Honestamente não sou um galã, nem um vigarista, não sou herói, nem destruidor, mas é esse intermeio de seres, indecifrável, que apresento para o mundo, que me envergonha e me emudece. 
Seria melhor se eu não amasse, se eu não fosse assim tão eu, se o mundo fosse pura dor e realidade, assim minha fantasia de romantismo não atingiria ninguém, nenhum coração perdido esperando para se encantar. Eu me condeno por cada lágrima alheia derramada, mas espero e torço para que minhas amadas se encontrem em braços que saibam as acalentar. 
Sou um ser errante, amante, errado.


19 de agosto de 2011

...na fila do pão

02 - tudo passa - Marcelo Camelo

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O errar é humano, o julgar talvez mais humano ainda. Seria um fim sem versos nem prosa se na hora do adeus o ponto final não fosse replicado em reticências. Nas madrugadas e tardes desse inverno de garoas, as palavras que voam por ondas invisíveis proferem veneno e sangue numa dor que tenta se acalentar. Tudo simples seria se o vão me consumisse e eu enfim sumisse desse cenário de caos acomodante.
Naquela história onde habita a dúvida eu mesmo me confundo com as variações da certeza. Numa ficção a graça da trama está nas possibilidades variantes de verdades que se escrevem, na vida real ou se é isso ou aquilo, tudo o mais é condenável. Cansei de tentar me explicar e até de tentar me entender. O mundo me abusa em suas insinuações.
...até quem me vê na fila do pão sabe mais de mim do que eu mesmo.
Durante meus digitares abri um sorriso, não pela lembrança amarga do que o imaginar alheio possa se inventar, mas pela certeza de que mesmo que indiferente o outro ainda perde tempo só para pensar em mim. Mas tudo bem, tudo passa....

13 de agosto de 2011

Atlas Desordenado

Era eu, o silêncio e a companhia. 
Naquelas noites em que sentado eu espalhava sonhos por destinos diversos a alegria de reorganizar as páginas soltas daquele velho atlas ouvindo as palavras doces de seu imaginar, eu me lançava por um mundo singelo de satisfação. Ali o Gabão, a Tailândia, os países do leste europeu e até as ilhas do pacífico me pareciam miragens possíveis de me imaginar não só. Quando o sorriso que me observava soprava em minha nuca um sentimento de reciprocidade, o mundo se resumia naquele espaço de cimento e tijolos.
Sem entender até hoje como se delimitam as fronteiras, vivo meus caminhos tortos na esperança de um dia não caminhar tão só. Sabe-se lá o porque dessa afeição pela solidão, mas vou meus passos desenhando numa folha solta com um giz de cera o meu mapa particular. 
Ali no rodapé dessa imagem que ainda não se apresentou, pois é futura, virá descrito "Ele, o silêncio e a companhia". A felicidade há de se apresentar.
Enquanto isso eu carrego um mundo em minhas costas.

9 de junho de 2011

...off

Estava como a canção proclama, "andando por ai meio desligado", de um jeito estranho observando as nuvens que passam pela moldura de minha janela. As vezes a aquarela que me presenteia nas tardes de mormaço, são apenas impressões de um cansaço nulo, vago, vazio. Farto de tanto ócio, experimento bem pouco da reação à minha inércia.
Sobre o colchão surrado que me acolhe eu vejo uma triste realidade que me absorve lentamente a cada novo entardecer. Estou ficando, enquanto o mundo passa, enquanto tudo passa, enquanto a vida segue por histórias delirantes. Já não me basta acordar, pois os olhos abertos denunciam que não durmo. Eu é que esqueci que viver é mais do que contar as horas. Já não me vejo num pretérito-mais-que-perfeito a algum tempo, preciso urgentemente entender o presente e conjuga-lo em verbos mais intensos.


'-Agora aperte o botão!'

28 de fevereiro de 2011

Trovadores sociais

Criando-se novas alternativas na costumeira rotina do homem, novas histórias se constroem. Basta ao ser humano a fuga de seu ambiente de conforto para que novos costumes, relações e comportamentos sejam adquiridos e amplamente difundidos durante o decorrer do dia. É convivendo que se vive a arte de sobrevivência social.
...
Éramos em dezenas numa terra distante e nova para todos. Estávamos a trabalho e o sentimento de tranquilidade nos absorvia. Vivemos os dias que nos foram oferecidos de maneira  intensamente juvenil no que se refere a aproveitar o melhor da vida. Entre conversas, passeios, degustações e brincadeiras novos laços foram se formando com pessoas de convívio antigo. Era como uma redescoberta daqueles que compunham a muito o círculo social, mas que contudo não faziam parte ou com tamanha atenção o grupo de amigos.
Rimos um dos outros, dividimos experiências, aprendemos com nossos erros, e principalmente com gafes alheias, e agora retornamos ao nosso habitat natural. Não sei como será daqui pra frente. Naturalmente as coisas tendem a se restabelecer, porém haverá sempre na lembrança de quem viveu essa aventura a imagem da amizade vivenciada.
...
É importante ser social,
independente da rima.

20 de dezembro de 2010

...e não deu tempo!

Acorda já cansada do que ainda há por vir. Levanta de sua cama desconfortável, abri a janela pra uma paisagem desinteressante, escova os dentes entediada e condena seu dia a insatisfação. Seus amigos lhe parecem falsos e distantes. Seu corpo dói como se tivesse quebrado pedra o mês inteiro. O ônibus se atrasa, o trânsito congestiona, o sol esquenta o ambiente, a mente explode em mil variedades de palavras chulas para descrever sua sensação. Chega ao trabalho atrasada, seu chefe não percebe, mesmo assim ele já é responsável e alvo de possíveis queixas por seu próprio atraso. O dia caminha e ela insiste em negar a alegria que é possível co-habitar seu espaço. Sobre um traço errado sua assinatura anula o trabalho de toda uma semana, é o fim do mundo, mesmo bastando apenas uma reimpressão. Irritada com as vozes que viajam ao seu redor no caminho de volta pra casa, ela só pensa em limpar a bagunça do seu apartamento. Chega na casa arrumada e encontra defeitos no trabalho da diarista, diz que essa só pode ter problema de vista por não enxergar a poeira que não existe. Passa um pano fajuto por sobre a mesa de centro, se cansa e desiste de persistir em sua condenação do trabalho alheio. Vai ao banho, parece outra, calada e distante de seu próprio mau humor. Com um copo de café assiste a novela que se repete e reclama do enfadonho roteiro que não se altera independente do título do folhetim. Alguém lhe liga, e ela não atende. Pensa em quem pode ser o demente que quer atrapalhar seu momento de lazer. Vinte minutos depois acorda de um cochilo , desliga a tevê, ruma ao quarto.
Três dias depois é encontrada morta no leito, aparentemente vítima de causas naturais.
...
Esqueceu de viver o que o dia lhe propôs.
Agora não há mais tempo.


2 de dezembro de 2010

Life, Love and the HIV

Ele músico, ela louca, ele tímido, ela solta, ele homem, ela uma mulher de encanto mágico. Diante do trágico o espelho reflete a história de um casal imaginário. A vida é o acolchoado de retalho que os cobre em noites de frio. São dois mundos diferentes que se somam na angústia de alimentar a ausência que um sentimento tão puro é o único capaz de preencher.
Depois de anos na busca o caminho os reuniu numa mesma sala-quarto-cozinha, prontos para dividir os momentos de uma vida familiar. Na mesa ao jantar descobrem as rotinas e antecipam os desejos. Antes da cama os beijos e depois a sedução do amor carnal. Pelas ruas as mãos dadas exibindo o compromisso é o símbolo do enlace que a sociedade deve compreender.
No peito bate um coração incorrupitivel, imutável em sua capacidade de sentir e viver a realidade de que a vida é o prosseguir de cada instante, e diante das adversidades é a coragem de se manter firme na certeza de que o sonho é um passo possível. Eles amam e querem se sentir amados. Eles lutam e querem conquistar seus espaços. Eles vivem, e isso por si só já basta.

"Ser positivo quando se é positivo.
E não ser negativo quando se é negativo."


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*Inspirado no documentário Me, Myself & HIV exibido pela MTV.


28 de fevereiro de 2009

Entre os Neandertais

Fui ao longe a trabalho, acolhido em um campo de cuidados especiais. Estava pronto ao que viesse a acontecer, assim imaginava eu. Aos poucos percebi que não seria dificil sobreviver as tarefas, mas seria intensamente complicado a convivência com 'os iguais'.
Foram sete dias dividindo o mesmo espaço, e pude aprender bastante com esta experiência.
Os seres humanos, em especial os seres do sexo masculino têem características interessantes a serem analisadas. É incrível o nível de exibicionismo mesmo na ausência das fêmeas. Interessante também são os dialógos baseados em sua maioria na necessidade de contar vantagens (suspeitas).
Porém o mais assustador de todos os comportamentos machistas é a inexistência dos velhos e bons hábitos de higiene. Os rapazes conserguiram derrubar conceitos de sociabilidade e até ditados populares. Quem conhece aquele ditado que diz "isso é mais velho do que a posição de cagar" pode dizer adeus ao mesmo. Os rapazes inovaram ao ir no sanitário, quero ressaltar e parabenizar os autores das cagadas Daiane dos Santos (Aquele que dá o duplo twist-carpado e caga pra cima) e o da cagada Pomba-Gira (aquele que caga fazendo círculos até a porta do banheiro), sem esquecer do cocô Ogiva (no meio do percusso explode e mela o vaso todo). Agora o mais aterrorizante foi o garoto que não segurou o seu precioso e soltou o burduim na aréa coletiva dos chuveiros.Vou esquecer outras informações para o bem do estomago dos meus leitores.
Definitivamente tudo isso serviu para expor que felizmente nem todos somos iguais. E com toda sinceridade, me senti em determinados momentos no tempo das cavernas.
Malditos humanóides...